Vídeos que sexualizam âncoras de TV viram fenômeno do YouTube

Apresentadoras locais das grandes redes de TV estão sofrendo com o chamado assédio virtual. Canais no YouTube editam suas participações em jornais e repostam as imagens na web com contexto sexual, ressaltando partes do corpo como seios e nádegas. A jornalista que mais aparece nessa situação é Mariana Martins, ex-Globo e agora apresentadora da Record em Goiânia. 
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Para Priscilla Bittencourt, âncora da Globo em Sergipe, a exploração é "revoltante". "Isso é um ato de violência", desabafa.

Levantamento feito Notícias da TV constatou que há um procedimento padrão. Primeiro, o vídeo reproduz a apresentação normal da jornalista, como na TV. Depois, começa o "assédio virtual": ele é editado, e colocado em câmera lenta, focando nas partes íntimas das apresentadoras. Além de Mariana Martins, também têm sido vítimas desse tipo de assédio Silvye Alves, apresentadora policial da Record em Goiás; Jéssica Senra, âncora da Globo na Bahia; Raffaela Oliveira, ex-apresentadora esportiva da Record em Sergipe; e Manuela Montenegro, repórter da Record no Amazonas.

Além das âncoras locais, os canais também utilizam, em vídeos pontuais, celebridades e apresentadoras esportivas. A ex-BBB Cacau Colucci, a funkeira Lexa e a apresentadora Livia Nepomuceno, do Fox Sports, já foram vítimas. São cinco canais no YouTube que alimentam esse tipo de conteúdo. A aposta é majoritariamente em âncoras locais, já que as afiliadas não costumam derrubar vídeos no site por questões de direitos autorais, diferentemente da Globo.

O campeão nesse tipo de sacanagem é o canal "gbrsj cec", com mais de 8 milhões de visualizações e atualização semanal. O vídeo mais visto tem cerca de 1,2 milhão de views. Os comentários dos leitores são de arrepiar de tão grotescos. Mariana Martins, a apresentadora mais objetificada sexualmente, surpreendeu o mercado no mês passado ao trocar a Globo pela Record. Ela apresentava o tempo e trânsito do Bom Dia Goiás, era equivalente a Gloria Vanique no Bom Dia São Paulo, e ficava sempre de pé. Essas imagens foram editadas na internet, com foco em seu bumbum.

Assédio lucrativo

Tais vídeos não têm bloqueio de idade, nem restrição de conteúdo, e ainda são monetizados pelo YouTube. Ou seja, os donos chegam a ganhar dinheiro pelos crimes que praticam. Na teoria, além de conteúdo de direito autoral, as imagens poderiam ser tiradas do ar por se tratar de degradação da mulher, segundo a advogada especialista Ignácia Cardoso. 

"A situação é peculiar", diz. Não existe uma lei clara para esse tipo de crime na esfera penal, tudo depende da interpretação do juiz. Do lado civil, podem haver sanções.

"Na esfera civil, houve violação de direito de imagem, usando a jornalista em um contexto sem seu consentimento, mas mesmo assim é difícil identificar o autor, quem está postando ou quem está comentando nos vídeos. Na esfera penal, não vai se enquadrar, porque não tem no vídeo cena de nudez, pornografia ou de sexo, não podendo responder pelo artigo 281-C, que é o mais próximo da situação", afirma.

O fato também revolta movimentos de defesa da mulher. O Coletivo Feminista Ana Montenegro, um dos mais importantes do Nordeste, se indignou. Para uma de suas representantes, a militante Maria Aparecida Lopes, o sucesso desse novo tipo de prática prova o machismo enraizado na sociedade. 

"O machismo precisa ser combatido, para que além de tudo nossa dignidade humana seja respeitada, pois mulheres não se resumem a um pedaço de carne para ser consumido pelos homens, nossa capacidade está para além das nossas aparências e do nosso sexo", afirmou Maria Aparecida.

Foram procuradas todas as âncoras citadas. Jéssica Senra e a TV Bahia preferiram não comentar o assunto. Mariana Martins, Silvye Alves, Raffaela Oliveira e Manuela Montenegro não responderam. A única que decidiu falar foi Priscilla Bittencourt, que não sabia que era vítima até ser abordada pela reportagem. 

Ela pediu alguma forma de punição para seus agressores e ressaltou que leis especificas para crimes virtuais precisam ser criadas. "Como qualquer mulher, eu me senti ofendida e desrespeitada. Acredito que a internet torna esse tipo de conduta ainda mais grave, porque além do comportamento abusivo de quem posta, existe a exposição da imagem da vítima. Isso é um ato de violência que precisa de leis severas e fiscalização para que os agressores não se sintam impunes", disse Priscilla. A reportagem também tentou falar com o YouTube, mas não houve resposta da plataforma de vídeos até a conclusão deste texto.
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